
O indivíduo é responsável por sua vida?
“O indivíduo deve ser responsável pela sua vida”. Você concorda com essa afirmação?
Antes de responder, convém compreender o conceito de “individualização”, desenvolvido pelo sociólogo Zygmunt Bauman, no seu livro Modernidade Líquida…
…Vamos a ele…
Uma nova forma de pensar o fracasso
Em outras épocas, instituições como a família, a igreja, os sindicatos e o próprio Estado ofereciam referências, proteção e pertencimento.
Essas instituições limitavam a liberdade, sim, mas também dividiam responsabilidades e ofereciam algum amparo diante das dificuldades.
Havia uma percepção de maior de respeito à família, confiava-se nos sindicatos defendendo direitos dos trabalhadores e numa eficiência mínima do Estado, por exemplo, na certeza do cidadão ter uma aposentadoria razoável na velhice.
A “individualização”, marca dos tempos modernos, representa uma nova forma do indivíduo pensar o fracasso e da sociedade se organizar. Com ela, a falta de solidariedade é normalizada. O indivíduo passa a entender que tudo o que lhe acontece de pior deve ser por si suportado, não havendo qualquer dever, ainda que ético, da sociedade ou do Estado de lhe prestar auxílio.
Morar em um carro e não ter plano de saúde
Na modernidade a incerteza é uma constante. Cada pessoa percebe o mundo e os seus riscos como se estivesse praticamente sozinha. O fracasso absoluto e o desamparo passam a ser encarados como algo da normalidade.
Frente a “individualização”, uma família ter que vir a morar dentro de um automóvel, ou não ter qualquer assistência médica, por não ter um plano de saúde – circunstâncias observáveis em alguns momentos nos Estados Unidos – deixa de ser algo absurdo para serem consequências da incompetência individual… e das regras do jogo.
Problemas coletivos se transformam em culpa individual
Como consequência da individualização, se alguém está desempregado, não só a sociedade, mas o próprio indivíduo, passa a crer que lhe faltou competência. Se enfrenta dificuldades financeiras, conclui que administrou mal sua vida. Se vive estressado, acredita que não soube organizar sua rotina.
Mas a causa do insucesso não pode ser atribuída apenas ao indivíduo. Problemas particulares muitas vezes decorrem de crises econômicas, desigualdades estruturais ou da própria organização da sociedade. Nem sempre o sucesso ou o fracasso decorrem de falhas ou méritos exclusivamente individuais.
O resultado é uma permanente sensação de culpa. Se tudo depende apenas de você, qualquer fracasso parece ser exclusivamente seu – e não reclame, não cobre, você não tem esse direito!
Do cidadão ao consumidor
Uma outro marca da modernidade, relacionada à individualização, é o indivíduo se perceber muito mais como a um consumidor do que a um cidadão. A consequência é trágica.
Ideias prontas, como a de que “as pessoas têm muitos direitos”, passam a serem aceitas como razoáveis sem que o indivíduo as critique, pois, ainda que haja corrupção e má gestão do Estado, o fracasso é encarado como a um vexame, produzindo sentimento de culpa e de ineficiência.
Como tábua de salvação, o indivíduo deixa de buscar soluções coletivas para os problemas da sociedade, pois entende que a única forma de ter uma vida digna é concentrando seus esforços na construção de uma vida privada.
Internet e individualização
A internet contribui para esta nova forma do indivíduo pensar a sua vida.
O bombardeio diário de coachs, influenciadores, pseudocelebridades, estampando a imagem de sucesso e riqueza pautada exclusivamente no mérito pessoal, visando a venda de produtos e serviços (cursos, treinamentos, mentorias etc.), é uma prática que, se por um lado beira muitas vezes ao estelionato, por outro, ajuda a consolidar o discurso da individualização.
Cria-se a ideia de que, a única opção para o sucesso pessoal é o indivíduo ser um empreendedor. – Concretizar o sonho do Eu S/A através de uma MEI.
Afora raríssimas exceções, o resultado é o aumento da precarização de relações de emprego, com a transferência do risco de organismos econômicos para o trabalhador, a exemplo da “pejotização” e da “uberização”. – E pasmem!… O indivíduo não vê, absolutamente, nada de errado em abrir mão de direitos sociais conquistados ao longo da história.
Afinal, somos responsáveis por nossa vida?
Reconhecer a responsabilidade individual não significa ignorar as condições sociais que moldam nossas escolhas. Somos responsáveis por nossas decisões, mas não escolhemos livremente todas as circunstâncias nas quais somos obrigados a decidir.
O desafio é conciliar liberdade e responsabilidade sem transformar nenhuma delas em uma explicação absoluta. Problemas complexos não podem ser reduzidos a fracassos exclusivamente individuais.
Assumir a responsabilidade pela própria vida é necessário, e compreender os limites dessa responsabilidade é ainda mais importante.
Até a próxima!
Emerson Souza Gomes
Advogado e blogueiro
www.cenajuridica.com.br




