Thales Aguiar: A praça e o algoritmo se encontraram

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Caros eleitores, a eleição de 2026 não foi decidida por um palco, e sim pela costura entre a rua e a tela. Quem separou as duas perdeu tempo. Quem as uniu virou o jogo. Não há fórmula mágica nisso. Há coerência. Os números mostram a dimensão.

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente, com 47% dos votos válidos contra 45% de Lula. Jamais um segundo colocado havia vencido uma disputa presidencial no país. Lula venceu, com 51,77% a 48,23%. A pergunta útil não é quem tinha a melhor propaganda. É o que mudou na linguagem.

Há um paradoxo conhecido na ciência política que quanto mais o eleitor cobra espontaneidade, mais as campanhas a fabricam, e o truque só funciona enquanto não é percebido. Nas semanas finais, a campanha vencedora abandonou o tom solene e passou a falar em vídeos de celular, no formato selfie, olhando para quem assistia. Foi proximidade, ativo que nenhuma tecnologia substitui. Apenas transporta. E o eleitor percebe quando o gesto é ensaiado demais.

A televisão dividiu o palco. O que circulou foi o corte de poucos segundos de debate, não a transmissão inteira. O eleitor brasileiro vota na figura, não na sigla, e julga pelo gesto, pelo tom, pela hesitação. O personalismo não é novidade, mas o algoritmo o turbinou: premia o rosto, a voz, o improviso. Quem hesita em dez segundos de vídeo perde a eleição da conversa.

As mídias não se eliminam, se sobrepõem. Atos de rua nas capitais conviveram com um canal de mensagens de quase onze milhões de pessoas, com tarefas diárias de circulação. É a velha militância convertida em infraestrutura digital. O apelo chegava no grupo da família, onde a fonte conhecida empresta credibilidade, e era confirmado na avenida. Rede sem rua é ruído. Rua sem rede é eco.

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Comparecer é uma decisão em parte comunicacional, depende de sentir que a eleição importa e que o voto muda algo. No segundo turno, cerca de três milhões de pessoas a mais foram às urnas, e pautas concretas, como a jornada de trabalho e o transporte em dias de votação, falaram a esse sentimento. Quem convence o eleitor de que o desfecho depende dele já percorreu metade do caminho.

A campanha vencedora também investiu em ampliar a rejeição ao adversário, tática clássica de reta final, alertando para riscos a programas sociais. Seria injusto, porém, contar só um lado. A campanha derrotada apostou em governadores aliados, influenciadores e artistas populares, e cresceu cerca de 3,7 milhões de votos. Pesaram contra ela propostas pouco detalhadas e a dificuldade de reagir a ataques nos debates. As ferramentas eram parecidas. A diferença esteve na coerência entre mensagem, rua e rede, e na velocidade de resposta.

Há um alerta. Técnica serve a fins diversos, e quanto mais sofisticada, maior a responsabilidade. Canais de mensagens já foram questionados no TSE por suposta desinformação, e as regras de 2026 sobre inteligência artificial, com rotulagem e veto a novos conteúdos sintéticos nas 72 horas finais, mostram o Estado correndo atrás da tecnologia. A tensão entre liberdade e integridade eleitoral segue aberta.

Agora vem o teste que importa. Imagem se sustenta com entrega, e o mandato é o exame final de toda campanha. Popularidade de campanha é empréstimo, e só a gestão quita a dívida. Quem ganhou na praça e no algoritmo agora precisa ganhar na vida real do eleitor.Viva a democracia.

Thales Aguiar – Jornalista e escritor / Especialista em Ciência Política

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