
Há anos acompanho a política brasileira. Estudei o assunto. Escrevi sobre ele. Ainda assim, um vazio me incomoda cada vez mais. Quase metade das cidades do país não possui jornalismo local. O Atlas da Notícia de 2025 apontou 2.504 municípios nessa condição.
Mais de 20 milhões de brasileiros vivem neles. Em boa parte desses lugares, não há um único profissional para acompanhar a Câmara, a prefeitura ou o uso do dinheiro público. Esse fenômeno é chamado de deserto de notícias. A expressão é justa. A informação some. E, junto com ela, desaparece a fiscalização. Sem cobertura local, o prefeito fala sem contestação. O vereador também. O site oficial se transforma na principal fonte. Comunicação institucional se mistura com propaganda. O cidadão fica sem versão alternativa.
Fica sem dúvida. Fica sem ferramenta para comparar.
Na ciência política, usamos o termo accountability. Trata-se da capacidade de cobrar contas. De exigir respostas. De responsabilizar quem falha. No âmbito municipal, essa cobrança quase desaparece quando ninguém registra o cotidiano. Sem olhar externo, o poder se acomoda. A democracia se enfraquece em silêncio. Já observei isso de perto. Em cidades pequenas, o debate público se reduz a redes sociais e conversas de rua. Boatos ganham força. Versões oficiais circulam sem checagem. Grupos políticos se revezam no comando por décadas, quase sem escrutínio. A ausência de cobertura transforma a política local em território sem testemunha. O digital ofereceu algum alívio. Novos sites e rádios diminuíram um pouco o número de desertos. Porém, muitos desses veículos são frágeis. Fecham em pouco tempo. Não deixam arquivo. A memória da cidade some junto. O que foi publicado ontem desaparece amanhã. O passado político se apaga.
O resultado é uma democracia incompleta. Fixamos o olhar em Brasília. Debatemos o Congresso e o Planalto com intensidade. Esquecemos que a vida concreta acontece no município. É ali que a escola funciona ou falha. É ali que a saúde chega ou atrasa. É ali que o orçamento vira obra ou vira desvio. É ali que o cidadão sente, no dia a dia, se o Estado existe de verdade. Sem imprensa local, o eleitor decide no escuro. O gestor age sem temor de denúncia. A corrupção miúda se torna hábito. E a grande, muitas vezes, começa exatamente sem testemunha e sem registro. Nunca tivemos tantos dados nacionais. Tantas pesquisas. Tantos números. Mas perdemos o olhar sobre o chão. Sobre a rua. Sobre a praça. Sobre a sessão da Câmara que ninguém cobre.
A democracia não se sustenta apenas em eleições nacionais. Ela exige vigilância diária. Exige quem pergunte, todos os dias, o que foi feito com o recurso público. Exige quem anote o que foi prometido e o que foi entregue. Enquanto existirem desertos de notícias, existirão também desertos de accountability. E um país que não consegue se enxergar por inteiro. Um país que discute o centro e ignora a periferia do poder. O silêncio, no fundo, também é uma forma de poder. E ele cresce exatamente onde ninguém está olhando.
Thales Aguiar – Jornalista e escritor | Especialista em Ciência Política








