Thales Aguiar: Transumanismo: Estamos prontos para deixar de ser apenas humanos?

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Caros leitores, há um limite tênue entre curar e melhorar o ser humano. Nesse território nasce o transumanismo. A corrente de pensamento que defende usar biotecnologia, inteligência artificial e engenharia genética para superar as fronteiras biológicas da nossa espécie (o envelhecimento, as doenças, e até os limites da própria inteligência). O filósofo sueco Nick Bostrom, uma das vozes mais influentes do movimento, sustenta que a espécie humana não é um ponto final da evolução, mas uma etapa intermediária. Para ele, recusar as ferramentas que a ciência oferece para ampliar nossas capacidades seria uma escolha tão arbitrária quanto recusar a vacina ou os óculos. Se corrigimos a miopia, por que não poderíamos, no futuro, corrigir os limites da memória ou da longevidade?

Do outro lado do tabuleiro está Francis Fukuyama, que já classificou o transumanismo como uma das ideias mais perigosas do mundo. Sua preocupação não é tecnológica, mas política. Se começarmos a editar geneticamente ou a aumentar artificialmente algumas pessoas, corremos o risco de romper a igualdade essencial que sustenta a própria noção de direitos humanos. Se todos nascemos, ao menos em tese, com o mesmo valor moral, o que acontece quando alguns nascem “melhores” que outros não por mérito, mas por acesso à tecnologia? É aqui que a filosofia encontra a política. Michael Sandel, em sua crítica à busca pela perfeição genética, alerta que essa corrida pode transformar dons naturais em produtos de escolha, corroendo a humildade diante do acaso que, para ele, sustenta a solidariedade social. Se o sucesso de alguém deixa de ser “sorte genética” e passa a ser “investimento em upgrade”, como justificar a compaixão pelos que ficaram para trás? E é exatamente essa a pergunta política mais urgente. Quem vai pagar por essa evolução?

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Hoje, os avanços mais promissores em edição genética, próteses neurais e interfaces cérebro-computador nascem em laboratórios financiados por poucas corporações e bilionários. Se o aperfeiçoamento humano seguir a lógica de mercado, o resultado não será uma humanidade mais forte, mas uma humanidade dividida entre os que podem comprar mais tempo de vida, mais memória, mais saúde, e os que seguirão reféns da biologia comum. Não é ficção científica distante. Já convivemos com versões modestas como os exoesqueletos, marcapassos inteligentes, implantes cocleares, terapias genéticas para doenças raras. É aí que o Estado, a legislação e o debate público precisam entrar em cena, antes que o mercado decida sozinho. Aqui no Vale do Rio Doce, o transumanismo pode parecer um tema distante, quase de outro planeta. Mas as decisões regulatórias que o Brasil tomar nos próximos anos sobre edição genética, inteligência artificial e biotecnologia vão definir que tipo de sociedade seremos daqui a duas gerações. Filosofia e política, aqui, não são luxo acadêmico, é a régua que vai medir se o futuro incluirá todo mundo, ou só quem puder pagar por ele.

Thales Aguiar é jornalista especialista em Ciência Política.

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