
Desde que me entendo por gente, no bom sentido da expressão, sempre ouço falar das mesmas coisas em relação ao povo brasileiro. Somos, entre outras coisas, um povo cordial, pacífico e festeiro, que vive de esperanças, sempre projetando o futuro e usando o passado para justificar nossas mazelas.
Observando nosso passado e fazendo uma análise sociológica, com o estabelecimento de critérios socioeconômicos e culturais, podemos afirmar, sem medo de errar, que nosso passado não traz nada de bom para a maioria do povo brasileiro. Muito pelo contrário!
Nossa herança histórica escancara mazelas que beiram a desumanidade. Somente em relação à escravização, podemos estabelecer uma marca oficial de 388 anos. Desde 1500, com a escravização dos povos indígenas e, logo em seguida, dos povos africanos, até 1888, data oficial da abolição, durante muitos séculos, situações degradantes aconteceram com milhares de pessoas. E isso, é lógico, traz consequências inegáveis.
Sabemos também que políticas públicas voltadas para a massa, para o povo, não estiveram presentes nos projetos governamentais de nossa classe política durante séculos. Políticas públicas voltadas para as demandas sociais podem ser percebidas a partir dos governos de Getúlio Vargas, intensificando-se no período pós-redemocratização, em 1988.
Poderia citar aqui tantas outras situações. Todavia, o que mais me incomoda, como parte do povo, é a seguinte questão: até quando ficaremos usando nosso passado para justificar nossa passividade no presente? E nem me refiro aqui a uma passividade coletiva, mas, sim, individual.
Usamos nosso passado para justificar a falta de oportunidades que muitas gerações anteriores às nossas não tiveram. Atualmente, podemos afirmar que faltam oportunidades? Será que, atualmente, faltam vagas nas escolas, nas universidades, nos postos de trabalho e possibilidades de trabalho empreendedor? Daqui a 50 anos, as pessoas poderão usar o passado para justificar a falta de oportunidades e, por consequência, as lamúrias e lamentações da vida?
Já é público e notório que a educação é o vetor para o desenvolvimento. Dela derivam a ciência e suas descobertas, que promovem o desenvolvimento social; dela deriva a cultura, que possibilita o comportamento socialmente aceitável; dela deriva o gosto pela leitura e seus intermináveis benefícios para o cérebro, para a intelectualidade… Mas, mesmo sabendo disso, preferimos a ignorância. Não gostamos de estudar, desprezamos a escola, lemos muito pouco e não acreditamos em valores como forma de crescimento pessoal.
Por que somos assim? Sabemos a saída para os nossos problemas, mas não queremos caminhar por ela. Tantos outros povos enfrentaram os mesmos problemas que nós e deram a volta por cima. Veja a história do povo japonês, do australiano, do próprio povo europeu, que passou pela Idade Média, e dos povos nórdicos. Enfim, não faltam exemplos. Mas nós insistimos em justificar nossa pobreza, nos seus mais variados sentidos, e, por consequência, não saímos dela.
A ignorância coletiva parece avançar a cada dia. O triste é que sabemos que ela não trará bons frutos, mas, mesmo assim, queremos mergulhar cada vez mais nela. Se temos consciência do nosso passado, por qual motivo não mudamos as páginas da nossa história? Até quando manteremos em nosso espírito a síndrome de vira-latas?
Walber Gonçalves de Souza é professor, escritor e palestrante (prof.walbao).








